Zonas de treinamento baseadas em potência

Todo método de treinamento baseia-se em cinco pedras fundamentais: modo, duração, freqüência, volume e intensidade. O modo representa o esporte (ex. ciclismo, corrida, natação) a ser praticado nas sessões planejadas do programa de treinamento. A duração (ex. 90 minutos, 12 horas) representa a quantidade de tempo dedicada a cada sessão de treinamento. A freqüência define quantas vezes o atleta irá treinar durante o programa de treinamento (ex. 5 vezes por semana). O volume representa o produto da duração e freqüência das sessões de treinamentos (ex. 20 horas por semana). Finalmente, a intensidade é definida pelo grau de esforço necessário em cada sessão para alcançar o objetivo programado.

A intensidade é geralmente o divisor de águas entre diferentes métodos de treinamentos. Diversas escalas são utilizadas para definir a intensidade das sessões e/ou intervalos de treinamento. Temos escalas subjetivas de percepção do esforço (ex. CR10 de Borg), monitores de freqüência cardíaca e velocidade e mais recentemente medidores do ritmo (GPS) e da potência desenvolvidos pelo atleta. Com algumas diferenças em duração, freqüência e volume, a intensidade é na maioria das vezes a grande diferença entre os métodos. Porém, não existe o método de treinamento perfeito, pois caso existisse, este seria adotado por todos. Um ponto importante é que com a evolução dos equipamentos que “medem” variáveis fisiológicas em tempo real, a tendência é a convergência dos métodos de treinamento.

Na FCA Sports, o método de mensuração da intensidade e treinamento preferidos para aplicação aos seus atletas ciclistas é aquele desenvolvido por Allen & Coogan. Este método vem sendo desenvolvido a partir de experimentos laboratoriais e discussões científicas promovidas pela USA Cycling nos últimos 20 anos. Neste período, os medidores de potência foram progressivamente inseridos e estudados em um mercado dominado pelos medidores de freqüência cardíaca e velocímetros. A grande vantagem deste método é a utilização da medida da potência produzida pelo ciclista como variável fundamental na mensuração do esforço realizado. Ao contrário da medida da freqüência cardíaca, percepção do esforço, velocidade e ritmo, um watt (medida de potência) será sempre um watt. Sabe-se que as variáveis apenas citadas sofrem influência de muitos fatores cotidianos como, por exemplo, o estado de hidratação, nível de descanso, estresse psicológico, inclinação do terreno e outros. Portanto, com a medida da potência, os atletas da FCA Sports sempre terão um índice objetivo para saber o quão intenso estão pedalando.

Veja na tabela a seguir, como são distribuídas as zonas de treinamento estabelecidas por Allen & Coogan. Interessante notar que também são atribuídas faixas de intensidade para freqüência cardíaca e percepção subjetiva do esforço, além daquelas principais regidas pela potência.

Zonas de Treinamento Baseadas em Potência

ZonaDescrição% do FTP*% do FTHR*RPE**
1 Recuperação Ativa <55 <68 <2
2 Resistência 56-75 69-83 2-3
3 Ritmo 76-90 84-94 3-4
4 Limiar de Lactato 91-105 95-105 4-5
5 VO2max 106-120 >106 6-7
6 Capacidade Anaeróbica 121-150 N/A >7
7 Potência Neuromuscular N/A N/A Máximo
*Percentual da potência e frequência cardíaca médias no limiar funcional
**Escala de 10 pontos de Borg (CR10
)

Outro ponto importante do treinamento é saber o que esperar de adaptação no organismo do atleta quando este se encontra treinando em determinada zona durante um volume de tempo significativo. A próxima tabela resume as principais adaptações fisiológicas musculares e do organismo que ocorrem desde que o “estímulo” seja suficiente.

Adaptações fisiológicas esperadas com o treinamento nas zonas 1-7

Adaptação1234567
Recuperação AtivaResistênciaRitmoLimiar de LactatoVO2maxCapacidade AnaeróbicaPotência Neuromuscular
Aumento do volume plasmático   + ++ +++ ++++ +  
Aumento das enzimas mitocondriais musculares   ++ +++ ++++ ++ +  
Aumento do limiar de lactato   ++ +++ ++++ ++ +  
Aumento do armazenamento de glicogênio muscular   ++ ++++ +++ ++ +  
Hipertrofia das fibras musculares de contração lenta   + ++ ++ +++ +  
Aumento da capilarização muscular   + ++ ++ +++ +  
Interconversão de fibras de contração rápida (Tipo IIx → tipo IIa)   ++ +++ +++ ++ +  
Aumento do volume de ejeção/débito cardíaco máximo   + ++ +++ ++++ +  
Aumento do VO2max   + ++ +++ ++++ +  
Aumento dos estoques de fosfatos de alta energia (ATP/PCr)           + ++
Aumento da capacidade anaeróbica (tolerância ao lactato)         + +++ +
Hipertrofia das fibras de contração rápida           + ++
Aumento da potência neuromuscular           + +++
OBS: O sinal de mais representa a magnitude das adaptações para uma certa "dose" de treinamento. Quanto mais sinais, maiores adaptações.

Espero que este artigo te ajude a entender melhor os princípios de um dos vários métodos de treinamento e medida do esforço. Com certeza, você irá desfrutar mais daqueles intervalos que sempre te levam a pensar: Por que eu estou fazendo isso??

Referências

ALLEN, H.; COGGAN, A. Training and racing with a power meter. 2nd. ed. Boulder, Colo.: VeloPress, 2010.

FRIEL, J. The cyclist's training bible. 4th. ed. Boulder, Colo.: VeloPress, 2009.

 

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