A partir de 1999, Lance Armstrong, vencedor do Tour de France sete vezes seguidas, revolucionou o mundo do ciclismo ao ser o único ciclista profissional a usar altas cadências (> 90 rpm) tanto em terrenos planos quanto em subidas. Este fato trouxe uma antiga discussão de volta ao cenário ciclístico: Qual seria a cadência ideal para um ciclista de estrada em subidas, no plano ou contra-relógio? E no mountain bike, haveriam diferenças?
A maioria dos estudos projetados para estudar a cadência no ciclismo é limitada pelo uso de bicicletas ergométricas estacionárias durante os testes. Na melhor das hipóteses, os indivíduos são avaliados em suas próprias bicicletas acopladas a um ergômetro fixo. Além disso, os testes com potência fixa tem sido os mais escolhidos nas investigações. Qualquer ciclista irá concordar que testes com potência constante realizados em condições laboratoriais dificilmente irão reproduzir as mais diversas condições encontradas durante uma prova, por exemplo, pedalar no plano ou subida, e sozinho ou no pelotão. Ocorre também que, em estudos laboratoriais, os ciclistas devem permanecer sentados durante os testes. Sabe-se que muitos escaladores freqüentemente levantam e assentam durante as subidas. Por estas razões, deve-se ter cautela ao tentar extrapolar achados laboratoriais para o mundo real do ciclismo.
Em 2001, Lucía e colaboradores1 publicaram um estudo com dados de 7 ciclistas profissionais durante a temporada de 1999 (Giro D’Italia, Tour de France e Vuelta a España). Foram analisadas as cadências nas principais condições encontradas: contra-relógios individuais, etapas de montanha e planas (pelotão). Na tabela abaixo, podemos observar os principais resultados.
| Plano, pelotão | Contra-relógio | Altas Montanhas | |
|---|---|---|---|
| Cadência | 89 (80-99) | 92 (86-96) | 71 (62-80) |
| Velocidade (km/h) | 44 (38-51) | 47 (44-50) | 17 (12-25) |
Durante as etapas planas, em pelotão, os ciclistas tendem a pedalar em torno de 90 rpm. Apesar de uma menor eficiência / economia, a minimização de lesões musculares com o uso de altas cadências parece ser uma boa estratégia para estas etapas, permitindo uma recuperação muscular mais rápida para as etapas seguintes.
Nos contra-relógios individuais, a cadência preferida foi praticamente a mesma dos estágios planos. Independente das considerações sobre eficiência ou fluxo sangüíneo, a escolha de altas cadências é inevitável, pois níveis inferiores iriam causar uma grande tensão sobre músculos e tendões, o que seria muito difícil de tolerar.
Em contrapartida, a cadência média de 70 rpm adotada nas subidas, provavelmente reflete a economia necessária para se manter um desempenho ótimo. Neste ponto é que Lance Armstrong foi diferente de todos. Ele mantinha altas cadências (> 90 rpm) e conseguia, por exemplo, ser 1 km/h mais rápido que seus maiores adversários em subidas de 14 km com inclinação média de 8%. Acredita-se que Lance conseguia manter esta alta cadência em decorrência do seu elevado VO2 (taxa de captação e utilização de oxigênio). Isto não significa que esta seja a cadência ideal para todos os ciclistas. Bjarne Riijs (Tour de France 1996) foi capaz de derrotar grandes escaladores, como Miguel Indurain, em etapas de montanha mantendo cadências de 70 rpm ou menos.
No mountain bike, os estudos ainda são escassos quando comparados com o ciclismo de estrada. MacRae e colaboradores estudaram atletas da sub-elite e encontraram uma cadência média de 70 rpm nas subidas. Mesmo assim, acredita-se que altas cadências podem ser úteis ao diminuir o estresse muscular e melhorar o fluxo sanguíneo para membros inferiores. Não se conhece também a influência dos diferentes terrenos sobre a cadência ideal.
Portanto, antes de pensar em otimização de cadência e dar conselhos sobre padrões de cadência a ciclistas, procure conhecer melhor a cadência preferida em situações reais. Em teoria, ciclistas irão adotar a cadência ótima espontaneamente.
1Lucía, A., Hoyos, J., and Chicharro, J.L. 2001. Preferred pedaling cadence in professional cycling. Med Sci Sports Exerc 33:1361-1366.
Artigo originalmente publicado na Revista VO2MÁX em 2007.




